Nos últimos dias, o Afeganistão foi palco de uma execução pública chocante que evoca o período mais rigoroso do primeiro regime Talibã. Dezenas de milhares de afegãos – cerca de 80 mil – lotaram um estádio para testemunhar um adolescente de 13 anos disparar três vezes contra um homem condenado pelo assassinato de 13 membros de sua família.
“Olho por Olho”
O homem executado, identificado como Mangal, foi considerado culpado pela Suprema Corte do Afeganistão pelo massacre da família do garoto, incluindo mulheres e crianças. O ato é parte da aplicação do “Qisas”, ou “retaliação na mesma moeda”, uma interpretação rigorosa da lei Sharia imposta pelos governantes talibãs.
A sentença de morte foi confirmada em múltiplas instâncias judiciais e, finalmente, aprovada pelo líder supremo do Afeganistão, Hibatullah Akhundzada.
- Punição Retaliatória: A vítima havia sido condenada por invadir uma residência na província de Khost em janeiro de 2025 e assassinar um parente distante.
- Perdão Recusado: A família do condenado teve a opção de conceder perdão e promover a reconciliação, o que salvaria a vida do réu, mas optou por exigir a pena de morte.
- Reação Pública: Disparos foram ouvidos em meio a cânticos frenéticos de “Allahu Akbar” (Deus é Grande) entoados pela multidão fora do estádio.
Condenação Internacional
A execução gerou forte repúdio da comunidade internacional. Richard Bennett, relator especial da ONU para os Direitos Humanos no Afeganistão, classificou a prática como “desumana, cruel e [uma] punição incomum, em desacordo com o direito internacional”, exigindo o fim de tais atos.
Em contraste, moradores locais, como Mujib Rahman Rahmani, declararam apoio à execução, argumentando que a prática pode ter “efeitos positivos” como forma de dissuasão criminal.
Restrições a Mulheres
O Talibã também tem sido criticado pela comunidade internacional pela imposição de proibições que atingem desproporcionalmente mulheres e meninas. Essas restrições incluem:
- Impedimento de frequentar o ensino médio e universitário.
- Restrição da maioria das oportunidades de emprego.
- Obrigatoriedade de códigos de vestimenta rigorosos e proibição de circular sozinhas sem um guardião masculino.
Em julho, o Tribunal Penal Internacional (TPI) chegou a emitir mandados de prisão contra líderes do Talibã por promoverem a perseguição sistemática de mulheres e meninas no país.
A Controvérsia dos Influenciadores
Apesar da repressão e dos alertas de viagem do Departamento de Estado dos EUA e da União Europeia, o turismo no Afeganistão tem crescido, com quase 4.000 turistas em 2024. Isso tem levado a críticas por parte de ativistas afegãs.
A acadêmica e ativista afegã Dra. Orzala Nemat condenou influenciadores digitais que publicam conteúdos elogiosos sobre o país, acusando-os de ajudar a “reabilitar a imagem” do Afeganistão. Segundo ela, esses conteúdos “apagam as realidades brutais enfrentadas pelas mulheres afegãs sob o regime talibã”, já que os privilégios concedidos aos visitantes ocidentais (como circular livremente) são negados aos próprios afegãos.
Uma influenciadora, Zoe Stephens, de Liverpool, defendeu sua visita, alegando que “nem tudo o que você ouviu na mídia sobre o Afeganistão é totalmente verdade!”.
Segundo o Daily Mail, a controvérsia foi intensificada por um vídeo paródia de Yosaf Aryubi, um afegão-americano promotor de turismo, que gerou forte repúdio por lembrar, de maneira perturbadora, vídeos de decapitação produzidos por extremistas islâmicos. O vídeo mostrava influenciadores ajoelhados e ensacados, em uma cena que parodiava a libertação de reféns e dava as “boas-vindas ao Afeganistão”.




