A situação da liberdade religiosa no Irã voltou a gerar preocupação entre observadores internacionais após três casos recentes envolvendo mulheres ligadas à comunidade cristã e à defesa dos direitos humanos. Os episódios incluem a prisão de uma advogada que atuava em favor de minorias religiosas, a negativa de tratamento médico a uma cristã detida e a condenação de uma convertida do islamismo a quase dez anos de prisão.
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Os casos ocorrem em um contexto de crescente pressão sobre cristãos iranianos, especialmente aqueles de origem muçulmana, grupo frequentemente alvo de vigilância e perseguição por parte das autoridades. O Irã ocupa a 10ª posição na Lista Mundial da Perseguição 2026, levantamento anual da missão Portas Abertas que monitora os países onde cristãos enfrentam os níveis mais severos de perseguição e discriminação por causa da fé.
Segundo o relatório, mais de 380 milhões de cristãos em todo o mundo vivem atualmente sob níveis altos ou extremos de perseguição. O ranking avalia os 50 países onde a liberdade religiosa sofre as maiores restrições e é utilizado por pesquisadores, organizações de direitos humanos e governos para acompanhar tendências relacionadas à liberdade de crença.
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No caso iraniano, a pressão se concentra especialmente sobre cristãos convertidos do islamismo e membros de igrejas domésticas, frequentemente monitoradas pelas autoridades. Organizações internacionais apontam que acusações relacionadas à segurança nacional são regularmente utilizadas contra praticantes e líderes religiosos independentes.
Advogada Que Defendia Cristãos é Presa
A advogada iraniana Bahar Sahraian foi presa na cidade de Shiraz e transferida para a prisão de Adilabad, estabelecimento que já foi alvo de denúncias relacionadas a maus-tratos e condições severas de encarceramento.
Conhecida por atuar em defesa de prisioneiros políticos, cristãos iranianos e minorias religiosas e étnicas, Bahar tornou-se referência em casos ligados à liberdade de crença e direitos civis. Organizações de direitos humanos alertam para riscos relacionados à sua segurança e ao acesso a tratamento adequado dentro do sistema prisional iraniano.
O caso chama atenção por demonstrar que não apenas membros de minorias religiosas enfrentam repressão, mas também profissionais que atuam em sua defesa.
Para Marco Cruz, secretário-geral da Portas Abertas no Brasil, os três episódios revelam um cenário que vai além de casos isolados.
“Essas mulheres representam diferentes faces de uma mesma realidade: a restrição da liberdade religiosa e de direitos fundamentais. Quando uma advogada é presa por defender minorias religiosas, uma cristã tem o tratamento médico negado e outra é condenada por causa de sua fé, estamos diante de situações que merecem a atenção da comunidade internacional e dos defensores dos direitos humanos”, afirma.
Tratamento Médico
Outro episódio envolve Mahshar Parandin, artista e cristã de origem muçulmana que cumpre pena de dois anos na prisão de Evin, em Teerã.
Segundo relatos de organizações que acompanham o caso, Mahshar sofre de problemas cardíacos e possui dois tumores diagnosticados. Apesar de ter sido encaminhada a um hospital para exames, ela retornou à prisão sem receber o tratamento recomendado pelos médicos.
Entidades de direitos humanos alertam que a ausência de acompanhamento adequado pode provocar consequências permanentes para sua saúde, incluindo complicações neurológicas e perda parcial da visão.
Condenação e Greve de Fome
A terceira ocorrência diz respeito a Ghazal Marzban, cristã convertida do islamismo condenada a nove anos e oito meses de prisão pelo Tribunal Revolucionário em Teerã.
As acusações incluem suposta propaganda contra o regime e atividades consideradas contrárias à segurança nacional. Durante uma operação em sua residência, agentes de segurança confiscaram Bíblias e materiais cristãos.
Desde maio de 2026, Ghazal mantém uma greve de fome em protesto contra sua situação. Relatórios indicam deterioração de seu estado de saúde, aumentando a preocupação de organizações internacionais que acompanham o caso.
Sua prisão também afeta diretamente a família. O marido, diagnosticado com síndrome de Parkinson, depende de cuidados e enfrenta dificuldades para obter medicamentos em meio à escassez registrada no país.
Os três casos recentes refletem um padrão observado por organizações internacionais que acompanham a liberdade religiosa no Irã. Embora a Constituição iraniana reconheça algumas minorias religiosas históricas, convertidos do islamismo continuam entre os grupos mais vulneráveis à repressão estatal e social. Prisões, interrogatórios, confisco de materiais religiosos e restrições às reuniões cristãs são algumas das medidas frequentemente relatadas por entidades que monitoram a situação dos direitos humanos no país.
Escassez e Aumento da Pressão
A situação ocorre em um momento de dificuldades crescentes para a população iraniana. Embora medicamentos estejam formalmente isentos de sanções internacionais, moradores relatam escassez de produtos essenciais e aumento significativo dos preços.
Desde a intensificação dos conflitos envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos, cristãos locais relatam dificuldades adicionais para adquirir medicamentos essenciais, como insulina e tratamentos respiratórios. Há também registros de aumento da vigilância e das restrições contra comunidades cristãs em diferentes regiões do país.
Segundo relatos recebidos pela Portas Abertas, comunidades cristãs têm enfrentado obstáculos adicionais para manter encontros e redes de apoio. Em um contexto em que muitas igrejas funcionam em ambientes domésticos e informais, a limitação do convívio comunitário pode gerar impactos sociais, emocionais e espirituais significativos.
“Em uma sociedade em que as igrejas domésticas frequentemente oferecem sobrevivência emocional e espiritual, o isolamento traz profundas consequências psicológicas. Ele se torna uma pressão adicional à já grave situação após a guerra e os protestos em nível nacional para a maioria dos iranianos”, relata Ahmad*, cristão iraniano.
Contexto
Segundo a missão Portas Abertas, cristãos convertidos do islamismo estão entre os grupos mais vulneráveis do país. A legislação e o ambiente social iraniano impõem restrições à mudança de religião, e igrejas domésticas frequentemente são alvo de monitoramento e operações policiais.
Enquanto a perseguição religiosa assume formas diferentes ao redor do mundo, o caso iraniano chama atenção pela combinação de vigilância estatal, repressão judicial e pressão social. Para especialistas em liberdade religiosa, os episódios envolvendo Bahar Sahraian, Mahshar Parandin e Ghazal Marzban ilustram os desafios enfrentados por minorias religiosas em um dos países mais restritivos do mundo para a prática do cristianismo.



